sábado, 20 de setembro de 2008

Herbário de Gestos

Herbário de Gestos, 2007.

A envolvência quotidiana com práticas de jardinagem no espaço onde habito, tem vindo a acentuar, o meu interesse pelas questões em torno do conhecimento e da representação das espécies botânicas. A possibilidade de plantar flores no exterior, acompanhar o seu crescimento e conhecer os seus aspectos morfológicos constitui uma vivência muito aprazível e que se reverte em momentos de tranquilidade no espaço doméstico. Na sequencia deste estímulo de relação com a natureza e com o valor simbólico que transporta consigo, no “entendimento do desenho, como a materialização de uma acto consciente – onde o gesto incorpora o acto do pensamento” (NEWMAN cit. ZEGHER: 2003, 72), constituiu uma razão, para explorar a experiência perceptiva segundo novos modos e processos.
Merleau Ponty (1908-1961) na sua obra, O Visível e o Invisível, refere que o conhecimento do mundo tem origem na vivência de cada um. São as nossas aprendizagens, experiências e sentimentos, que perspectivam a nossa percepção e acção. A vontade de saber mais, sobre esta temática viva e mutável, conduziu ao desenvolvimento de um conjunto de práticas, ao nível dos processos pictóricos num entrosamento, com os modos de classificação e arquivo das espécies botânicas.

Herbário de Gestos, reúne um conjunto de 50 desenhos realizadas em 2007. O corpo de desenhos, que se apresenta, recorre a uma espécie em particular: as raízes tuberosas das dahlias. Cada desenho foi realizado a partir do natural. As características materiais de cada um, são as seguintes: 51x36 cm, aguarela Rembrandt sobre papel winsor & newton, 220 gramas 100% algodão acetinado. A pena gráfica e o pincel chinês, foram os instrumentos utilizados.
Revelar o que da essência das dahlia, se deixa expressar, através do gesto que as desenha, foi um dos objectivo de orientação. Dentro da mesma espécie botânica, variam os referentes, e sem intenção objectiva, o tom da aguarela. A dimensão, o suporte papel, o pincel chinês, a pena gráfica e a escala de representação, são uma constante.

A escolha do referente - as raízes tuberosas das dahlia, prende-se com o significado do próprio termo. A raiz é o órgão das plantas superiores, que se situa na posição inferior do caule. Cresce no seu sentido inverso, destina-se a fixar a planta ao solo e a absorver as substâncias que a alimentam. As raízes possuem pequenos tubérculos carregados de reservas nutritivas que a seu tempo irão desenvolver-se, rasgar o solo, desabrochar e florescer.
O reconhecimento icónico e simbólico da raiz vegetal, aponta para a intenção subjacente que os procedimentos e a experimentação pictórica procuram explorar. Associar a raiz da dahlia, por um lado, como conceito vinculado aos significados de origem, principio e ligação entre as partes que a constituem e por outro lado, apreender as tensões, os movimentos, a intensidade das marcas transferidas para o gesto que traça e que configura cada tubérculo, antecipando as implicações temporais que a metamorfose e o crescimento da espécie convoca. Usar o corpo, como médium de transporte, na transferência de certas características da espécie para o acção do gesto, do pensamento. Entre o manusear do pincel e da tinta aquosa, na observação de um detalhe ou da totalidade da forma. A repetição de cada gesto, seja rápido ou lento, hesitante ... interrompido... procura nos contornos, nas pausas e nas marcas de cada acção, os limiares da representação.

Rosário Forjaz.
Galeria Plumba, 20 Setembro, 2008


MERLEAU-PONTY, M. (1971), O Visível e o Invisível, Editora Perspectiva, São Paulo.
ZEGHER, Catherine de, (2003) The Stage of Drawing: Gesture and Act, Tate Publishing and The Drawing Center, New York.

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